Eu sempre tenho idéias de merda. Toda vida foi assim. Confiando que tudo pode dar certo, mesmo sabendo que não dará, eu acabo me envolvendo em besteira.
Hoje eu acordei cedo para levar meu carro na concessionária. Revisão de 60.000 km. Eu odeio levar o meu carro feio, barulhento, cheio de problemas para revisão. Mas diferente das outras vezes, hoje fui recepcionado por uma simpática mocinha, sorriso bonito e bem humorada. Deu até gosto. Bom início, seria um bom dia. Aí que veio a idéia de merda. Ao invés de espera o transporte de clientes que sai as 9:00, resolvi ir embora utilizando o transporte público. Talvez empolgado com minha férias nos coletivos da Europa. Provavelmente estupidez insana.
Ato I - A dama do lotação
Peguei uma lotação do setor de moteis(!) até a estação de metrô mais próxima. Entro na primeira lotação. A besta(motorista e veículo) percorrem o trajeto de apróximadamente 4 km em 32 segundos. Pavor! Para os demais passageiros, tudo parece normal. 130 km/h pelo acostamento e ninguém muda suas feições. Olham distraídos a paisagem distorcida pela velocidade lúdrica com naturalidade de um passeio de domingo no campo em seu Corcel II.
Ato II - Ah Barcelona!
Entro na estação de metrô após 3 meses. A última lembrança que tenho de um metrô é de um ambiente limpo e organizado, um trem silencioso, música clássica ao fundo e telas de cristal liquido passando notícias fúteis como a inauguração da fonte Lady Di no Hyde Park e a Chantal me dando tchauzinho com olhinhos mareados. Isso foi no metrô que liga o Terminal 1 ao terminal 2 do Heathrow Airport em Londres. Sim, eles tem metrô para ligar um terminal ao outro, para você ter a idéia do tamanho do aeroporto. Tempo de percursso: 5 minutos. Impressionante.
Saio da lotação e me deparo com olhinhos vermelhos de uma velha bêbada me pedindo trocado. Diferente? Você não viu nada. Alguns passos adiante e vejo uma camisinha usada jogada no chão. A escada rolante está pifada, pitocos de cigarros estão por todos os lado. Compro o ticket com a caixa mais mal humorada do universo(One ticket, zone 1 and 2, for one day, please). Maquininha automática? Nem pensar! Ok, eu descobri também que construíram o metrô na boca de um vulcão. Ou do inferno, por que as três meninas que estavam logo após a roleta não deixam nada a dever a Cérberus, o cão. Santo cristo! E lembrar que passei 30 dias vendo as belas italianas, as deliciosas espanholas ou as loiríssimas inglesas. Não falo das francesas por que só lembro do cheiro de vestiário de acadêmia da estação de Bercy. Voltando ao inferno, que calor dos diabos estava fazendo no buraco do metrô. Ah Barcelona e seu ar condicionado. O trem chega e eu me aglomero com o restante. Que idéia de merda!!
Ato III - Rodoviária
Caio na rodoviário. Suando mais que tampa de chaleira, saio correndo para não ser atropelado pelos atrasados. Keep right. Não adiantou. Keep Left. Não adiantou. Foda-se, vai correndo mané. Escuto por todos os lados alguém gritando "vale! vale!". Eu tenho cara de estudante ou trabalhador pé rapado? Claro que sim. Preto de cavanhaque, eu sou o típico trabalhador brasileiro que anda 2 horas de transporte público para chegar na obra. Trabalha peão. Quem sabe com a cota de negros eu tenho uma chance de melhorar e tal...
Procuro desesperadamente a plataforma onde fica o circular W3 norte. Óbvio que era a plataforma mais longe da saída do metrô. Qual mais seria? E que fila é aquela? Tão distribuindo dinheiro? Não, é a fila para o meu ônibus. Burro, burro, burro!! E lá vou em apertado, suando, balançando, equilibrando até a última estação da W3 norte. Sou praticamente cuspido do ônibus ainda em movimento. 9:15 chego ao serviço. 1 hora após deixar o meu lindo, maravilhoso, fantástico carro na revisão. 6:00 eu vou lá busca-lo. De táxis, carona, helicoptero, a pé, carroça, menos de ônibus/metrô.